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    mundos possíveis entre o céu e o chão

    (2025)

     

    É no intervalo — entre o chão que sustenta os pés e o céu que suspende o olhar — que este projeto se inscreve. Desenvolvido a partir de uma residência autônoma na Barrinha de Baixo e em deslocamentos por Guriú e Pontal do Maceió, no litoral do Ceará, mundos possíveis entre o céu e o chão articula texto, objeto e fotografia como modos de escuta e experimentação do entorno e fabulação do real.

    Diante de um mundo que insiste em fixar formas, funções e identidades estanques — inclusive no que diz respeito à ideia de pertencimento — esta pesquisa se move em direção ao que escapa: restos, fragmentos, matérias deslocadas de seus usos originais e corpos em trânsito, atravessados por múltiplos territórios. Aqui, ser da terra não significa pertencer a um único chão. Somos seres errantes — e é no deslocamento que outros modos de habitar o mundo se tornam possíveis. 

    Tijolos lapidados pela areia, escamas, troncos, azulejos, algas, isopor — elementos catados na beira da praia — são reconfigurados nos trabalhos não como ruína, mas como linguagem. Assim como os territórios vividos, esses materiais carregam camadas, deslocamentos e reexistências. 

    O gesto de catar, central ao projeto, opera como prática estética e simbólica: inclinar o corpo ao chão para recolher “coisas caídas” torna-se também um movimento de retorno — não necessariamente ao lugar de origem, mas a um chão interno, onde memória e imaginação se entrelaçam. Ao contrário da postura ereta que domina e distancia a gente do mundo, o corpo que cata se dobra, se aproxima e escuta. Nesse gesto, o território deixa de ser fixo e passa a ser algo que se constrói na experiência.

    Se carregamos em nós os lugares por onde passamos, então nenhum corpo é estrangeiro quando decide fincar seus pés — ainda que provisoriamente — em um novo chão. Os territórios não se excluem: se justapõem, coexistem, se infiltram na memória e no corpo. Chão deixa de ser apenas superfície física e passa a ser campo sensível: chão vivo e poroso, onde grãos de areia, ventos e vestígios compõem outras possibilidades de existência. Um chão que também é forma de pensamento. Em diálogo, o céu não aparece como oposto ao chão pisado, mas como continuidade desse corpo que se situa entre ambos. Corpos entre céu e chão — como o nosso corpo e o corpo das casas que habitamos.

    A casa emerge como figura recorrente: não como estrutura fixa, mas como corpo em transformação. Casa em obras, casa virada do avesso, casa que sustenta o desconforto de existir entre tempos, lugares e estados. Telhado que aponta para o céu, fundações que sobrevivem aos tempos como pés firmes no chão.

    As séries que compõem o projeto — casas possíveis, esculturas possíveis, hoje temos cartas para jantar, pequena coleção de pedaços de céu e de chão, porção de nuvens possíveis e no meio do caminho tinha um verso — não se organizam de forma linear, mas como um campo híbrido de atravessamentos. Cada trabalho é um fragmento que contém um todo, uma tentativa de reorganizar o mundo a partir do que sobra e que conta estórias.

    Em um tempo orientado pela produtividade, pela permanência e pelo controle, mundos possíveis entre o céu e o chão propõe uma outra ética da relação com a matéria, com o ambiente e com o tempo: acolher o inacabado, honrar o caos, reconhecer a potência do que resta — e perceber que também pertencemos aos fluxos que nos atravessam. Mais do que apresentar respostas, o projeto abre perguntas: a) quantas peles assumimos ao longo da vida?
    b) onde, em nós, a casa mora? c) o que significa pertencer? d) que mundos podem emergir quando nos dispomos a escutar o chão? 

    Entre o céu e o chão, há sempre um intervalo. E é nele que, errantes, habitamos.

    Técnica. Instalação composta por texto, coisas e fotografia

    casas possíveis (2025)

    tijolo, madeira, restos de tijolos e azulejos lapidados pela areia e pelo mar, catados na beira da praia.
    tamanhos variados

    esculturas possíveis (2025)

    tijolo lapidado pela areia e pelo mar, resto de tronco de árvore, primavera e alga secas, escama de cumurupim e isopor, catados na beira da praia

    tamanhos variados

    hoje temos cartas para jantar (2025)

    ​(4) prato de sopa catado em feira de usados e caneta posca
    ø 20 cm

    pequena coleção de pedaços de céu e de chão (2025)

    (6) restos de tijolos e azulejos catados na beira da praia e acrílica sobre tela
    20 x 15 x 5 cm​

    no meio do caminho tinha um verso (2025)
    (6) cartazes impressos em papel couchê A3 - 250g
     

    porção de nuvens possíveis (2025)

    ​(4) tigelinhas de opalina catada em feira de usados, fotografia digital e caneta metálica permanente.
    12 x 18 x 2 cm

     

     

    Juliana Jacyntho   

    2025 © Todos os direitos reservados.

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