onde jaz meu céu estrelado

Cecilia Salles destaca em seu livro "Gesto Inacabado" que "ninguém que está reconciliado com a realidade cometeria a ambiciosa loucura de inventar realidades verbais"[1]. Que realidade é essa que nos aflige e serve de gatilho para inventar realidades poético visuais através da fotografia? Se uma pergunta fosse, onde jaz meu céu estrelado? Atafona, a praia com nome de moinho de vento. O trabalho conta a história de desaparecimento de Atafona, lugarejo à beira da praia, no norte fluminense, onde cresci e que vem sendo tragado pelo mar por força do fenômeno da "transgressão marinha", nos últimos 70 anos. Para falar de um lugar da memória, intangível, não palpável, porém muito vivo no inconsciente, o trabalho tensiona a conversa entre quatro grupos heterogênos de imagens: i) imagens da natureza do lugar, que vem sofrendo com o assoreamento do Rio Paraíba do Sul e o avanço voraz do mar; ii) azulejos arqueologicamente garimpados ao longo do projeto em 'cemitério de azulejos', similares aos encontrados nas ruínas da beira da praia, e nas paredes ainda de pé da casa em que cresci, na tentativa de recriar paisagens que não mais existem, mas também de cumprir a função de fio condutor ao costurar as muitas camadas dessa história; iii) imagens em P&B que traduzem o arrebatamento e a perplexidade daquilo que não está mais lá, da desaparição, "imagens-choque", nascidas dos “traveses” ou da “sombrografia”, e iv) imagens da casa em que cresci e que resiste ao avanço do mar, relicário da doçura da infância aqui eternizada, a nos fazer lembrar que não importa a destruição do entorno, a delicadeza e a sutileza existirão/resistirão para sempre na memória e no inconsciente de quem naquele lugar viveu. Ou, ainda, como afirma o filósofo e historiador da arte, Georges Didi-Huberman, nunca poderemos dizer: não há nada para ver, não há mais nada para ver. Apesar da destruição, da supressão de todas as coisas. Convém saber olhar como um arqueólogo. E é através de um olhar desse tipo – de uma interrogação desse tipo – que vemos que as coisas começam a nos olhar a partir de seus espaços soterrados e tempos esboroados[2].

[1] Salles, Cecilia Almeida. Gesto Inacabado, São Paulo: Intermeios, 2013, p. 41

[2] Didi-Huberman, Georges. Cascas, São Paulo: Editora 34, 2017, p. 61.

Ano de produção: 2016 - 2020

Técnica: fotografia digital, fotolivro publicado pela Fotô Editorial em março de 2020.